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Mestre Cardoso - Ceramista de Icoaraci-Belém-PA

O ceramista  Mestre Cardoso, (1930-2006), Raimundo Saraiva Cardoso, nascido no interior paraense, juntamente com sua esposa
Inês Cardoso, seu filho Levy Cardoso e outros parentes,
vive e trabalha em Icoaraci, localidade distante da cidade de
Belém do Pará cerca de 20 km.

Mestre Cardoso faleceu no dia 10 de abril de 2006.

 

      Em seu ateliê/oficina, prédio anexo à sua residência, confecciona peças inspiradas  na cerâmica amazônica — Marajoara, Tapajônica, de Santarém, Maracá  etc. Produz réplicas de vasos, cariátides, tangas etc,  usando a mesma técnica de seus antepassados, com o auxílio de rudimentares ferramentas.
No próprio local o barro (massa) é preparado —  socado, peneirado, hidratado e ensacado.

     As peças são modeladas com a técnica de “rolinhos/cobrinhas”. Na decoração usam baixo e alto relevo, entalhes, aplicações, polimentos etc. Os grafismos são feitos com engobes (barro de diversas cores em estado pastoso), e pigmentos minerais coloridos. As queimas são realizadas em rudimentar forno a lenha.

     Atualmente, quando necessitam fazer réplicas de peças de grande tamanho, urnas funerárias, por exemplo, se valem do trabalho de um oleiro que modela, em torno de pé, a parte principal. Outra inovação, que está sendo providenciada, é a construção de um forno a gás. 

 

 Mestre Cardoso  é profundo conhecedor da arte cerâmica. Estudioso,
dedica-se ao assunto há dezenas de anos. Pode ser considerado,
sem dúvida, um dos grandes responsáveis pelo resgate da cerâmica
amazônica pré-colombiana brasileira.
Com 75 anos, em 2005, apresenta vigor e entusiasmo. Falante e bem articulado, demonstra cultura e saber, certamente sem possuir adiantado estudo formal.


 

 

 

 

 

 

 

 

Urna Marajoara

 

 

     No passado  Mestre Cardoso, sua mulher Inês e outras pessoas trabalharam para o Museu Goeldi em Belém fazendo reproduções de peças do acervo da entidade. Foram confeccionadas, na ocasião,  dezenas de cópias usando os mesmos métodos e materiais que os indígenas usaram no passado. Na decoração, aplicaram corantes extraídos de sementes e raízes, e pigmentos minerais e engobes de variadas  cores.
O resultado final do trabalho foi excelente. Diz-se que só um competente especialista é capaz de diferenciar os originais das cópias.

     Em março/07 Inês Cardoso e Levy Cardoso ministraram uma Oficina no Museu Goeldi para um grupo de artesãos do município paraense de Oriximiná visando ensinar a confecção de réplicas de cerâmica arqueológica da cultura Konduri - complexo cerâmico encontrado na região dos rios Nhamundá e Trombetas, no baixo Amazonas, no Pará.

 

 

Reprodução Inês Cardoso datada de 1988-Coleção particular.

 

       O interesse de  Mestre Cardoso  pela cerâmica surgiu ainda criança vendo a mãe, que era louçeira,  e o pai na lida com o barro. Naquele tempo, em cidades do interior, peças utilitárias como panelas, potes, vasilhames etc, eram produzidos por  moradores para uso próprio ou para algum comércio.
     A modelagem era tarefa feminina — prática herdada dos indígenas. Aos homens, cabia a missão de retirar o barro das várzeas. Para maior consistência da argila, adicionavam-se cinzas de ossos e provenientes da queima da casca do cariapé (uma árvore da região); bem como de chamote (fragmentos de cerâmica em pó) (caco moído). As queimas eram feitas em fogueiras a céu aberto.
 

 

 

 

     Na cerâmica amazônica a decoração peças cromáticas se dava com o uso de engobes e com pigmentos de origem mineral e vegetal. Para a cor vermelha, usavam o urucum, para a branca, o caulim, para o preto, o jenipapo, além do carvão e da fuligem.

     Depois de queimadas, em forno de buraco ou em fogueira a céu aberto, as peças recebiam uma espécie de verniz obtido do breu do jutaí para dar um acabamento lustroso às superfícies. 

 

 

 

 

     Mestre Cardoso  recebeu uma merecida homenagem pelos seus serviços voltados à cerâmica da Amazônia.  Em Icoaraci, onde reside, há uma escola que leva seu nome — Liceu Escola de Artes e Ofícios “Mestre Raimundo Cardoso”. No local, além do ensino regular, os jovens são instruídos em ofícios: cerâmica, jardinagem, desenho, pintura etc. A escola possui forno elétrico e a gás, torno elétrico, maromba e o restante do equipamento que a atividade  exige.

     Deve-se notar que Icoaraci é um importante pólo de cerâmica. Há dezenas de ateliês/oficinas em atividade vendendo seus trabalhos para o mercado nacional e internacional. No entanto, a maioria está voltada para a produção em escala sem a preocupação de manter a tradição, no que se refere aos métodos de fabricação dos antepassados. O enfoque dominante é claramente voltado para o lado comercial.

 


 

       Observamos que até hoje, não raro, são desenterradas, na Ilha de Marajó, cerâmicas  indígenas. Habitantes, fazendeiros principalmente, encontram em suas terras vasilhas, potes, urnas funerárias, apitos, chocalhos, machados, bonecas de criança, cachimbos, estatuetas, porta-veneno para as flechastangas (tapa-sexo usado para cobrir as genitálias das mulheres) – talvez as únicas, não só na América mas em todo
o mundo, feitas de cerâmica. Objetos zoomorfos (representação de animais) ou antropomorfos (forma semelhante ao homem ou parte dele) e alguns misturando as duas formas.
 

     Sabe-se que grande quantidade de peças encontra-se fora do país fazendo parte do acervo de Museus e de particulares. O colecionador suiço Jean Paul Barbier , por exemplo, possui importante coleção de cerâmicas do período pré-colombiano da Amazônia brasileira, em Museus de Genebra e Barcelona.
 

 


Tanga

 

       No Brasil, encontra-se a cerâmica da Amazônia Pré-Colombiana — Marajoara e outras — no acervo do  Museu Emilio Goeldi em Belém-PA. Há também peças no Museu Nacional no Rio de Janeiro, no Rio de Janeiro-RJ, no Museu Arqueológico da USP , em São Paulo-SP, no Museu Universitário Prof Oswaldo Rodrigues Cabral , em Florianópolis-SC e no Museu do Marajó, em Santa Cruz do Arari-Marajó.

Pesquisa, texto e fotos: Renato Wandeck

Mestre Cardoso
Rua 8 de maio
Passagem São Vicente de Paula 01
Bairro da Agulha-Icoaraci
Belém-PA
CEP: 68813-190
Tel: (91) 3247-2792
Obs: Mestre Cardoso faleceu no dia 10 de abril de 2006.


Saiba mais sobre  Cerâmica Marajoara.

http://www.ceramicanorio.com/artepopular/ceramicamarajoara/cerâmica_marajoara.htm

 

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