MISCELÂNEA
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Técnica,
sensibilidade, fibras cerâmicas, e controle Texto
de Rogério Godoy, ceramista residente em Tiradentes-MG, comentando sobre técnica, sensibilidade, Ponto
1
- Acredito que cerâmica é alquimia, é soma de técnica e sensibilidade. Por isto
é difícil. Sem técnica não se consegue realizar o que se quer. Sem sensibilidade
e um mínimo de educação artística, pode-se obter peças tecnicamente perfeitas,
mas sem nenhum valor, como muitas das peças industrializadas. Creio que a grande
lição do Oriente está na sensibilidade. E a lição do Ocidente, principalmente no
último século, está na técnica. Tanta e tanta técnica que ficamos afogados em
números e ansiosos por outras vivências. No entanto,e apesar do afogamento,
creio que a síntese é exatamente neste caminho: a técnica ocidental somada à
sutileza e sensibilidade orientais, ambas absorvidas ou melhor, digeridas em
nossa realidade e vivência (brasileiras) para realizar algo singular e, se
possível, de valor universal. Os
ceramistas orientais tinham uma tradição. Isto é uma força imensa, basta lembrar
que nem um único vaso chinês da dinastia Sung, talvez a cerâmica mais
admirada, foi assinado. A cerâmica era produzida por simples artesãos (a
decoração era muitas vezes feita por crianças) imersos nos padrões
estéticos de uma tradição construída em mais de 300 anos, que não sofria
as pressões do comércio e do mercado. No entanto, e talvez infelizmente,
tem dois senões importantes:(a) a tradição dos ceramistas chineses ou japoneses
é deles, não é nossa e; (b) o tempo não volta, a época Sung, 950-1280 DC,
aproximadamente, passou e estamos no tempo da globalização!!! Quem
levantou e discutiu essas questões de forma brilhante foi Bernard Leach
(considerado o pai da cerâmica de atelier do ocidente moderno) no capítulo I do
seu livro "A Potter's Book", publicado em 1949 e, ainda muito atual. O capítulo
I se denomina: "Em busca de um padrão", do qual cito:
"Influências
de uma cultura estrangeira seja na arte ou na indústria devem passar por uma
assimilação orgânica antes de se tornarem parte de nosso (próprio) crescimento.
Mais ainda, isto só acontece quando elas (as influências) suprem uma necessidade
inerente, e isto é, em geral, inaugurado pelo entusiasmo e convicção profunda de
homens que tiveram sucesso no fazer a síntese neles mesmos."
Prometi
ao Renato traduzir para o Cerâmica no Rio um resumo deste capítulo do livro do
Leach, que foi publicada no Studio Potter e estou fazendo isto. Creio que este
resumo é muito importante para este debate. Mas,
o que eu quero colocar para este debate aqui é que não devemos abdicar da
tecnologia ocidental em nome da sensibilidade e da sutileza oriental, que devem,
naturalmente, informar as peças de qualquer bom ceramista hoje.O que é preciso é
manter a sutileza sem abdicar de uma tecnologia melhor e mais simples e que
possibilite fazer boa cerâmica, hoje. Mas existem problemas. Leach
não viveu em um país "em desenvolvimento", por isto não sentiu,
provavelmente, o peso da influência estrangeira absorvida sem assimilação
orgânica. No meu entender, uma das nossas tarefas é exatamente nos livrar aos
poucos deste peso através da crítica, da experimentação e da discussão, sem
transformar as influências de outras culturas em mitos, seja a favor ou contra
. Temos que nos apropriar do conhecimento que nos interessa, não
rejeitando a priori mas também,não aceitando sem criticar, comparar e testar, na
medida do possível, o conhecimento a que tivemos acesso através de livros,
cursos, etc.. Este procedimento, no meu entender, deve se aplicar a
influências de várias culturas como a americana, japonesa, chinesa e argentina
também. Outro
problema é o da linguagem. A linguagem da ciência é bem diferente da linguagem
da sensibilidade e se aplicam a campos diferentes. Por isto é importante não
confundir as duas. Não dá para usar argumentos de sensibilidade para provar ou
rejeitar algum procedimento técnico, a não ser que o procedimento técnico
impossibilite a realização de uma determinada meta estética específica.
No
caso da fibra, creio que o problema é eminentemente técnico e esta deve ser a
linguagem usada.Creio, também, que a rejeição da fibra cerâmica no nosso meio
tem mais ou menos o caráter de mito, absorvido da cultura cerâmica
argentina ou de uma rejeição da cultura americana (quase totalitária em sua
influência no Brasil, concordo), sem que tenha havido até hoje uma discussão
séria do assunto com aporte de informações científicas de outras fontes e
veiculação de resultados de experimentos. Por isto fico muito satisfeito com
este debate, ele significa exatamente realizar a assimilação orgânica de
que falava Leach, e gostaria de contribuir para ele. Ponto
2
- Contra a fibra cerâmica existe principalmente a afirmação de que ela é
cancerígena, afirmação que, creio eu, tem origem principalmente nas publicações
do Prof. Chiti que tem mantido uma intensa campanha neste sentido. Não tenho
capacidade para discutir este ponto, mas o artigo em anexo (título: O debate:
fibra x tijolo refratário, ou quem vai nos matar primeiro), infelizmente em
inglês, que vem da Austrália, vai contra esta posição e apresenta alguns dados
muito interessantes. Tão logo possa tentarei fazer um resumo em português do
artigo. Pessoalmente no lidar com a fibra ela me é muito mais irritante para as
vias respiratórias do que a poeira do tijolo refratário (em ambos os casos uso
máscara). Um médico amigo me disse que a irritação persistente é comprovadamente
origem de câncer. No entanto, a irritação aconteceu quando lidei
diretamente com a fibra para construir um forno. Não sei se a fibra em repouso
no forno e, principalmente, se revestida por algum líquido endurecedor de fibra
(existem vários no mercado, inclusive placas mais rígidas para revestimento),
vai exalar partículas. No caso do forno a gás, como diz o Carlos, creio que
essas partículas iriam para a chaminé. O problema pode acontecer em fornos
elétricos em ambientes fechados. Tenho lidado com meu forno elétrico de fibra
sem problemas, no entanto, o forno encontra-se em lugar muito ventilado com
coifa sobre o respiradouro superior.Semana passada terminei meu forno a gás, de
tijolos refratários isolantes (cerca de 800 litros) com porta totalmente de
fibra. Revesti a fibra com um "coating" endurecedor. Vamos ver como vai se
comportar.
Ponto
3
- Quanto ao controle da subida e descida da temperatura. Posso falar de minha
experiência. |