MISCELÂNEA
CERÂMICANORIO    
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INSTITUTO CENTROCAPE
Projeto APEX
Projeto Diagnóstico e Melhoria da Tecnologia Cerâmica dos Artesãos
 do Vale do Jequitinhonha-MG.


TECNOLOGIA CERÂMICA DO VALE DO JEQUITINHONHA
Por Rogério C. de Godoy¹

Final de queima no forno de Da.Zezinha, em Coqueiro do Campo, município de Turmalina.

Mapa de situação mostrando, em azul claro, o percurso do Rio Jequitinhonha e, em violeta, 
a localização das comunidades visitadas no projeto.

Fase 1 - Diagnóstico e propostas de melhoria da tecnologia cerâmica 
dos artesãos do Vale do Jequitinhonha.

(Maio de 2003 a fevereiro de 2004)

Entre maio de 2003 e fevereiro de 2004, o Instituto Centrocape² procurou fazer um diagnóstico  e realizou ações no sentido de melhorar a resistência mecânica das peças cerâmicas produzidas pelos artesãos do Vale do Jequitinhonha, sem alterar o estilo já firmado das peças produzidas.

 


Da.Maria Pires moendo argila na gangorra.
(Córrego da Roda, município de Turmalina)   


Da.Eva preparando a massa.
 (Pasmado, município de Itinga)

 

¹  Na etapa 2 do projeto contou-se com a colaboração dos professores Dr. Antônio Luiz Ribeiro Sabariz e Dr. Paulo Cesar de Matos Rodrigues, do Departamento de Mecânica da UFSJ, (Universidade Federal de São João Del Rei) onde foram realizados os testes nos corpos de prova, e do Prof. Márcio Morelli da UFSCar (Universidade Federal de São Carlos).
²  Instituto Centrocape é uma ONG, sem fins lucrativos, ligada à Central de Cooperativas de Artesãos Mãos de Minas, que busca apoiar e desenvolver o artesanato em Minas Gerais e no país. 

     A principal  motivação do projeto foi minimizar perdas de peças durante o transporte e armazenagem, bem como os custos da embalagem, fatos significativos frente a um mercado nacional cada vez mais exigente, e frente a um mercado exportador competitivo.
     Na primeira etapa, realizada em maio de 2003, foram visitados artesãos nas seguintes comunidades: Caraí, Santana do Araçuaí, Itinga, Araçuaí, Forquilha, Cachoeira do Fanado, Coqueiro do Campo e Campo Alegre
     Nessa viagem foram coletadas amostras de argila usadas pelos artesãos, acompanhou-se o trabalho de vários artesãos desde a preparação da argila até a queima e decoração final. Na foto 1, vê-se uma queima no forno de Da.Zezinha, em Coqueiro do Campo
     Durante a viagem tivemos a oportunidade de acompanhar a evolução da queima e fazer medições de temperaturas na parte inferior e na parte superior da câmara de cocção dos fornos, em duas localidades (Coqueiro do Campo, forno de Da.Zezinha, ver foto 1, e Minas Novas, forno de Amauri).  Enfim, na primeira etapa fez-se um levantamento do processo tecnológico utilizado pelas diversas comunidades. Essa tecnologia mostrou ser surpreendentemente uniforme tendo em vista a enorme área do Vale. A seguir, fornos de artesãos do Vale: primeiro fornos de Da. Maria Mendes de Itinga, depois pequeno forno de Da. Isabel, em Santana de Araçuaí e, por último, Amauri de Turmalina retira peças do seu forno. 

     A cerâmica de todo o Vale se caracteriza por queimas em baixa temperatura (600 a 900°C), em fornos a lenha do tipo esquematizado abaixo, de peças modeladas a mão e decoradas com engobes finos. A decoração é extremamente sofisticada e já firmou estilo e mercado.

     Na etapa 2 do projeto (julho a novembro de 2003), diversos testes foram feitos nas pastas cerâmicas (argilas) e nos engobes (tintas) coletados  nas comunidades do Vale, durante a  etapa 1:

1.     Medições nos laboratórios do Departamento de Mecânica da UFSJ e no atelier do Prof. Rogério C. de Godoy, em Tiradentes-MG, serviram para caracterizar as argilas dos artesãos frente a argilas industriais brasileiras. Foi adotada a metodologia do IPT-USP , para este trabalho, e foram emitidos certificados para 6 das argilas coletadas.  

2.     Foram medidas a densidade, porosidade, retração linear, perda de massa ao fogo e tensão de ruptura à flexão em corpos de prova feitos com as argilas coletadas e uma argila comercial de referência (terracota Pascoal). A tensão de ruptura, dentre os vários testes realizados, foi o principal por que caracteriza a  resistência mecânica das argilas, depois de queimadas em  diferentes temperaturas. As fotos acima mostram corpos de  prova sobre bancada do Departamento de Mecânica da UFSJ, corpos de prova de argila de Coqueiro do Campo, queimados a diversas temperaturas e um corpo de prova em ensaio de ruptura.

3.     Um conjunto de objetos, feitos com as argilas das comunidades e decorados com engobes (tintas naturais usadas no Vale) obtidos dos próprios artesãos, foram queimados em diferentes temperaturas e atmosferas, para estudar a sensibilidade da decoração frente a diversas possibilidades de queima.

 

 

Isto porque verificou-se no caso do Vale que, pode-se aumentar a resistência mecânica de uma peça aumentando-se a temperatura da queima mas, ao mesmo tempo, pode-se, também,  arruinar a decoração. 
     No mesmo sentido, peças adquiridas dos artesãos foram requeimadas a temperaturas mais altas em diferentes atmosferas (ver fotos acima). O problema verificado é que as cores utilizadas exigem atmosferas muito oxidantes e não resistem a temperaturas muito elevadas. 
     A foto da direita mostra os efeitos da temperatura e da atmosfera em corpos feitos com a mesma argila (argila de Margarida, Caraí) e o mesmo engobe (terra sigillata branca de Da.Zezinha). A foto da esquerda mostra peças dos próprios artesãos  requeimadas em temperaturas mais altas em atmosferas oxidante e redutora.
     Ainda como resultado da segunda etapa do projeto, foram produzidos um conjunto de painéis com amostras de cada argila testada e com os resultados da caracterização, para serem levados às comunidades de onde saíram as argilas. 
    As etapas 1 e 2 do projeto permitiram um diagnóstico dos principais problemas associados à fragilidades das peças do Vale e também abriu horizontes para novas possibilidades cerâmicas tendo em vista a qualidade de algumas argilas testadas.

     A etapa 3 (fevereiro de 2004)  significou uma volta ao Vale do Jequitinhonha, aos mesmos artesãos visitados na etapa 1, para cumprir os seguintes objetivos:

·     Apresentar aos artesãos os resultados dos testes realizados com as argilas, deixando em cada comunidade um painel com amostras de queima da argila local e a caracterização da mesma.

·     Apresentar a cada comunidade os resultados de queima de objetos produzidos com argilas e engobes (olêios ou águas de barro, como são chamados no Vale) obtidos dos próprios artesãos, discutindo os resultados.

·     Discutir o processo de queima nos fornos usados pelos artesãos, recomendando cuidados especiais durante a queima para evitar o problema do coração negro (ver comentário abaixo) e minimizar o problema das manchas nos engobes.

·     Discutir com algumas comunidades, particularmente com a comunidade de Santana do Araçuaí, o processo de construção de um forno com outro desenho que possa permitir maior uniformidade de temperaturas e temperaturas mais altas.

·     Fazer uma tampa de fibra cerâmica isolante e testar, no forno de Deuzani, em Coqueiro do Campo. Este teste não foi conclusivo devido às péssimas condições de trabalho (chuva).

 


     Campo Alegre, reunião com artesãs  
na etapa 3 do projeto.


Itinga,
o Sr. Ulisses Mendes 
segura nas mãos
o quadro com corpos 
de prova e caracterização da sua argila.                                                         

 

II - Principais problemas identificados e propostas de solução

     Os testes e pesquisas realizados durante o projeto  serviram  para mostrar que:

1.     Os principais problemas no que diz respeito à resistência mecânica das peças do Vale estão relacionados à queima.
2.     As técnicas de modelagem, a plasticidade das argilas utilizadas e o tratamento das argilas para produção de massas cerâmicas são, em geral, muito bons.
3.     As argilas coletadas mais próximas ao Rio Jequitinhonha (Itinga, Araçuaí) se apresentaram mais vermelhas (terracotas), portanto melhores para queima em baixas temperaturas. A argila do Sr. Ulisses, de Itinga, foi a que apresentou maior resistência nas temperaturas de queima usadas no Vale. As argilas das comunidades mais distantes do Rio Jequitinhonha (Santana do Araçuaí, barrancas do Rio Fanado em Minas Novas e Turmalina) são mais claras, portanto exigem temperaturas mais altas para melhor sinterização (servem inclusive para produção de peças de grés). No entanto, todas as argilas apresentaram resistência razoável, desde que sinterizadas a temperaturas acima dos 800°C.
4.     As tintas naturais (engobes, águas de barro ou olêios) usadas pelos artesãos, à base principalmente de óxidos de ferro,  são extremamente sensíveis à temperatura e à atmosfera do forno (as peças mancham com facilidade e as cores escurecem quando a queima se faz com fogo mais forte).
5.     Portanto, a faixa de temperatura ideal para queima da cerâmica do Vale do Jequitinhonha fica entre 800 e 1000°C , em ambiente altamente oxidante para não alterar os engobes.

          No que diz respeito à queima foi possível identificar os seguintes 
problemas, como sendo os principais:

a - Formação do coração negro.
Defeito no qual a peça fica frágil e, quando quebra, apresenta um miolo negro (foto ao lado). Este miolo negro é, no caso do Vale , argila que não ficou bem sinterizada e que contem carbono. Isto acontece porque a temperatura do forno é elevada muito rapidamente, selando e queimando a argila por fora e deixando a argila mal sinterizada e impregnada de carbono por dentro. O carbono, oriundo da matéria orgânica (responsável pela cor cinza da argila), deve ser normalmente eliminado na queima sob a forma de gás carbônico, que escapa através dos poros da argila, quando a queima se faz lentamente. 

     Este defeito pode ser constatado na maioria das peças quebradas que se encontram no lixo do depósito da loja do Mãos de Minas, em Belo Horizonte. O problema pode ser resolvido com os fornos do Vale, na forma em que estão, desde que a queima seja feita de forma mais vagarosa e cuidadosa. É preciso ter pelo menos 6 a 8 horas de queima para peças de paredes finas (menos de 0,5 cm), e mais tempo para peças de paredes grossas.
     Peças com paredes muito grossas devem ser evitadas pois tendem a apresentar uma série de defeitos, além do peso excessivo. Artesãos mais cuidadosos conseguem apresentar peças sem o coração negro com a tecnologia existente. No entanto, toda uma campanha e uma pedagogia continuada devem ser ativadas para disseminar este tipo de cuidado no Vale.

b - Temperatura de queima e formação de manchas.

     No que diz respeito à decoração das peças, os compradores brasileiros  apresentam aos artesãos duas exigências que, do ponto de vista da tecnologia usada no Vale, são exigências mutuamente excludentes:

1. querem peças altamente resistentes e

2. exigem peças sem manchas.

     O problema é que os processos decorativos utilizados pelos artesãos se baseiam em engobes finos (terras sigillatas) feitos de terra, em geral com percentagens variáveis de óxido de ferro nas suas diversas formas. O óxido de ferro é muito sensível à atmosfera e à temperatura, mudando de cor com facilidade dentro do forno. De outro lado, para aumentar a resistência das peças, é preciso elevar a temperatura do forno aumentando o fogo. Como os fornos são bastante primitivos e apresentam uma grande diferença de temperatura entre a base e o topo (cerca de 200°C, nas medições feitas), além da existência de buracos no chão do forno por onde passa o fogo, que atinge diretamente  parte das peças, o aumento do fogo significa manchar as peças de baixo. Os artesãos conseguem produzir peças altamente resistentes, mas a quantidade de peças manchadas passa a ser muito grande. Produzir peças sem manchas significa não elevar muito a temperatura na parte inferior do forno o que, em geral, deixa as peças da parte superior mal queimadas.

c - Em alguns casos, como já foi dito, as massas são muito refratárias para as temperaturas de queima utilizadas, o que torna a sinterização deficiente, mesmo para peças colocadas no fundo do forno.

Outros problemas:

     Uma série de sugestões e propostas foram detalhadas nos relatórios das diversas fases do projeto, levando-se em conta os fatos e possibilidades observados no Vale do Jequitinhonha. Dentre os vários  problemas observados, dois merecem ser citados:

a)     A necessidade de alguma mecanização no trabalho de pulverização e homogeneização das massas cerâmicas. A "gangorra", ver foto acima, e outros métodos artesanais  de produção de massa (uso do pilão, por exemplo) são extremamente penosos e afetam, a longo prazo, a integridade física das artesãs que se ressentem desse trabalho. 
        A ergonomia da atividade de modelagem (feita  em geral no chão, à moda indígena, conforme fotos abaixo) também deve ser trabalhada. Grande parte das artesãs queixam-se de problemas na coluna.

 


Da.Maria Mendes, de Itinga,
modelando panelas.  


Da. Zezinha, de Coqueiro do Campo,  modelando bonecas.

 

b)     As perdas no transporte por falta de uma tecnologia ou melhor processo de embalagem das peças, constituem também uma queixa geral e repetida em todas as comunidades. O estudo de alguma forma de embalagem usando até materiais alternativos (como serragem ou palha de arroz) é uma necessidade.

Tiradentes-MG, junho de 2004.

Rogério C. de Godoy


Conheça os trabalhos de alguns ceramistas do Vale do Jequitinhonha-MG.

http://www.ceramicanorio.com/artepopular/valedojequitinhonha/valejequitinhonha.htm

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