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Por que nem sempre dá certo adaptar receitas prontas de esmaltes ou

por que quando refaço algumas receitas os esmaltes ficam diferentes ?

             Há muitos anos atrás após terminar um curso de pesquisa científica de esmalte, no qual eu acreditava ter usado toda a minha capacidade didática, me chegou aos ouvidos um comentário meio sem jeito, um tipo de mistura de crítica respeitosa e frustração coletiva. Um amigo me confidenciou: “Ouvi algumas pessoas reclamarem que você não deu umas receitas de esmaltes no final do curso!”. Eu ri, pois achei que tinha deixado claro, durante o curso, que não acreditava que só receitas prontas resolvessem a questão, pois se elas dessem sempre certo, ninguém precisava aprender a fazer esmaltes, pois existiam vários livros e revistas que ofereciam inúmeras receitas excelentes.

Mas, apesar de confiar nos meus argumentos percebi que as pessoas me tomavam por um egoísta ou um desconhecedor de boas receitas, o que em nenhum dos dois casos era verdade. Frente a essas duas perspectivas (e talvez por que eu seja muito preocupado com a imagem que as pessoas fazem de mim...), decidi que no próximo curso, por vias das dúvidas,  daria uma lista de alguns bons esmaltes. E foi o que eu fiz, certo de que estaria ajudando a aplacar o anseio por bons resultados .

Passado algum tempo me chegou outro comentário, pilotado por outro amigo. Ele queria saber se uma receita que eu dera nesse último curso estava certa. Eu estranhei a dúvida e perguntei por que. Ele me explicou que quem tinha lhe passado a receita (pois ele não tinha feito o curso!) tinha avisado que a receita não dava certo por que, provavelmente, eu deveria ter “omitido” alguma matéria prima ou algum “macete” ou qualquer outra forma de ocultar o famoso " pulo do gato" que aliás, comentou ele, ninguém gosta mesmo de passar...

Resumindo, se eu não dou a receita estou "escondendo o jogo" e se dou passo por coisa pior, pois conscientemente escolhi enganar o participante... As opções não são muito boas!

Na verdade por trás desse esconde-esconde se revela uma lógica dos esmaltes cerâmicos que muitas das pessoas não conseguem compreender.

As receitas que envolvem materiais cerâmicos (esmalte, massas, engobes, BVs...etc) podem   variar dependendo de diversos fatores, mas certamente um dos mais cruciais é a variação da matéria prima utilizada.

Muita gente acha que feldspato é feldspato e ponto final. Que argila é argila e PT Saudações. Mas a realidade é que mesmo produtos industrializados( imaginem então em produtos naturais) podem sofrer variações e estas vão interferir no resultado final. Uma mesma mina de feldspato pode apresentar variações significativas de um lado para o outro. Um lado mais fundente e o outro menos fundente. As próprias mineradoras tem maneiras de minimizar esse efeito, algo parecido com o que os fabricantes de Whisky fazem para manter a estabilidade da bebida.  Sem falar que quando compramos matérias primas em um fornecedor ele não te informa, em geral, de qual mineradora ele está comprando aquela matéria prima.  E quem garante que na próxima compra teremos o mesmo feldspato, ou pelo menos outro que tenha as mesmas características em relação ao ponto de fusão que o anterior.

Ora uma receita de esmalte de alta temperatura pode chegar a ter até 60% de feldspato! Imagine que mudanças pode provocar a troca de um feldspato por outro tipo em uma receita. Entre outros efeitos poderemos esperar a não fusão (underfired) ou a fusão em excesso, o embotamento ou a estimulação da coloração, a mudança do tonalidade, a modificação da textura, do brilho, da fluidez...etc, dependendo da receita base em questão.

Ou seja um esmalte pode ser refeito e parecer outro esmalte completamente diferente. Mas também pode não apresentar mudanças significativas. Isto acontecerá sempre que por coincidência não houver uma alteração significativa das variáveis. E isto só se justifica em geral por uma única variável comum a tudo e a todos — A  S O R T E ! Sim, o acaso. Isto por que nunca uma receita vem acompanhada de todas as variáveis envolvidas no resultado final do esmalte. Essas variáveis "ocultas" também interferem no " jeitão" do esmalte. Entre esses fatores que podem provocar alterações nos esmaltes podemos citar: O tipo de ciclo de queima ou o tempo de duração (rápido, médio ou longo), a granulometria de todas as matérias primas(pós mais finos ou não) , o procedimento na preparação( se houve moagem, peneiramento...), o tempo médio de esfriamento do forno (se o forno é de fibra ou tijolos), O tipo de massa sobre a qual ele manifesta aquele efeito ( se há bastante quartzo ou não...), qual a espessura de camada na qual ele tem aquelas características... etc...etc...etc.  E mesmo que essas variáveis fossem informadas será que o interessado poderia reproduzi-las? Provavelmente não...

Depois dessa argumentação o que a gente pode dizer sobre isso tudo?

Não desanimem, essas receitas podem ser ajustadas ou calibradas para se aproximarem muito daquele efeito que tanto almejamos, basta apenas conhecer um pouquinho das funções dos materiais e fazer alguns testes.  E mesmo que, depois disso ela não seja a 8ª Maravilha do mundo ainda pode vir a ser um excelente esmalte. As receitas estão por aí, suspensas na Aurora Boreal da Cerâmica, a espera de algum aventureiro corajoso que se apresente para colhê-las. Mas contudo vale contar com a variável principal.........A Sorte!

Por tudo isso é que eu gosto muito de encorajar as pessoas a produzirem suas próprias receitas, pois vale a pena tentar por todos os motivos a seguir:

12 motivos para um ceramista aceitar o desafio de produzir suas   próprias receitas de esmalte!

1º) Por que podemos usar matérias primas locais que são mais baratas

2º) São mais fáceis de obter e de produzir.

3º) O fornecimento das matérias primas é relativamente garantido.

4º) O fornecedor está mais próximo caso haja a necessidade de alguma assistência técnica.

5º) A receita poderá ser feita para atingir um efeito específico, mais interessante para esse ou aquele trabalho.

6º) Aumenta a nosso controle sobre o nosso trabalho.

7º) Melhora a identidade das nossas peças.

8º) Facilita muito o trabalho de " calibrar" as receitas no caso de alguma alteração significativa.

9º) É extremamente estimulante para a auto-estima do ceramista.

10º) Estimula a necessidade de conhecer mais o nosso material de trabalho.

11º) Desafia a nossa criatividade.

12º) E é divertido.

  Assim esperamos que em 2003 nós possamos superar nossos limites e conseguir continuar a colocar a cerâmica de estúdio no lugar onde ela realmente deve estar exposta : Na vida das pessoas!

Boa sorte e boas receitas!
           Tito Tortori  em jan/03


Colaboração do Ceramista, Professor e Pesquisador  Tito Tortori, que possui ateliê no Rio de Janeiro-RJ
titotortori@yahoo.com.br
 

 

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