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Projeto Oficina de Cerâmica para Reabilitação de Portadores de 
Deficiência Visual do IBC-Instituto Benjamin Contant.
Rio de Janeiro-RJ.
Texto: Clara Fonseca ceramista com ateliê no Rio de Janeiro-RJ.

     É muito bom para mim e para minhas companheiras ceramistas, poder repartir uma experiência tão rica e fértil como a que temos vivido junto aos portadores de deficiência visual do Instituto Benjamin Constant (IBC).

     Nos últimos 27 anos venho aprendendo e ensinando cerâmica numa linha de produção artística e utilitária.

     O Projeto Oficina de Cerâmica para Reabilitação de Portadores de Deficiência Visual do Instituto Benjamin Constant, atende a alunos e reabilitandos, e é a evolução de uma relação bem sucedida entre o IBC  e a arte cerâmica. Esta relação teve início em outubro de 2001, com a exposição "Cerâmica Tátil", patrocinada pela Associação dos Ceramistas do Rio de Janeiro - ACE-Rio, que trouxe, pela primeira vez, aos portadores de deficiência visual atendidos no Instituto, a possibilidade de interagir com as peças expostas.

     A proposta desta exposição foi o resgate de duas funções fundamentais da relação entre a arte cerâmica e o público:a inclusão do público deficiente visual, geralmente excluído deste tipo de exposição, no que tange às interações que a arte cerâmica possibilita; e o resgate da função primeira da cerâmica, que é a utilitária, sendo portanto, um convite ao toque e manuseio.

     Em 2003, sob minha coordenação, o IBC iniciou o projeto de Ateliê de Arte Cerâmica. O sucesso desta iniciativa foi enorme e gerou  em todos a necessidade de se consolidar e ampliar esta experiência, surgindo assim, o atual projeto de uma oficina permanente de cerâmica no Instituto.

    Esta oficina oferece às pessoas com deficiência visual, em primeiro lugar, um meio valioso de apreciar e trabalhar a forma estética, mediante o sentido tátil, encarado não como um substitutivo a ser arduamente trabalhado, mas sim como ferramenta sutil e preciosa a ser aperfeiçoada. Além disso, a auto-expressão concretizada no 'fazer cerâmico' proporciona aos deficientes visuais oportunidades raras, tanto do ponto de vista da qualificação profissional - na medida em que o Projeto se propõe a formar artesãos ceramistas - quanto do ponto de vista terapêutico-ocupacional, uma vez que a prática da arte cerâmica engendra uma série de possibilidades, como a descoberta de vocações e talentos, de forma que esses alunos tenham a chance, também rara, de satisfazer uma das necessidades básicas de todo ser humano - a necessidade de expressão da subjetividade.

     Já em 2003, a oficina atingiu um público de 20 alunos, entre adolescentes da escola e adultos reabilitandos, culminando com uma exposição de peças criadas para um presépio natalino (capa da revista Benjamin Constant n° 27).

     Em função da procura crescente de interessados pela oficina, o IBC garantiu um espaço mais amplo para a atividade, assim como foi adquirido o forno, necessário para a etapa final da confecção dos objetos, que é a queima das peças. Desta forma, todo o processo produtivo da cerâmica pode acontecer dentro das instalações do IBC.

     Para trabalhar com cerâmica, o indivíduo não precisa de um alto grau de instrução ou especialização. A argila ou barro, material a partir do qual é produzida a cerâmica, é maleável, permitindo através do seu manuseio e no simples contato com as técnicas básicas de modelagem, constituir um canal privilegiado de expressão dos sentimentos e sensações humanas. Da mesma forma, ao criarem objetos utilitários terão a chance de experimentar um processo milenar e universal, integrante do desenvolvimento de todos os povos.

     Todo o processo de criação representa na origem, tentativas de estruturação, de experimentação. Ao ordenar a matéria, expandir a argila, trabalhar a forma, estamos na verdade utilizando uma ferramenta poderosa de integração.

      
     A cerâmica é uma atividade que demanda envolvimento, tempo, paciência.
Trabalhar com a argila descarrega a ansiedade, a agressividade, e o excesso  de energia. Ela permite um processo terapêutico invisível. Moldando o barro moldamos a nós mesmos, permitindo as mudanças naturais da vida.

      Algumas adaptações  foram feitas por percebermos que as ferramentas usuais para o trabalho com a argila afastam a mão do objeto que está sendo confeccionado, o que dificulta a identificação. Utilizamos moedas para trabalhar o interior das peças  e chapinhas finas de aço para a parte externa no momento de fazer o acabamento. Desta maneira, a mão não se afasta muito da peça. Para decoração, usamos pintura a dedo com argilas coloridas, em vez do pincel, o que dá um lindo resultado.

     Comecei a notar a possibilidade de sucesso no trabalho com o deficiente visual pelo hábito de produzir no torno, inúmeras vezes, sem olhar o que estou fazendo, pois o centro da roda do torno não sai do lugar,ou seja, você não precisa ver e sim sentir, perceber, e nisso eles são muito bons! Aprendo sempre que estou com eles. Desenvolvo a atenção; a forma de falar sem o gesto; o amor à vida; apesar das dificuldades; o humor; e encontro sempre a paz.

      Os resultados positivos alcançados até o momento são tantos, que seria difícil enumerá-los. Os planos para o desenvolvimento do Projeto são muitos: criar fitas didáticas, levar exposições dos trabalhos a galerias, construir um acervo de peças para contar a história da humanidade para crianças e visitantes, ter uma exposição permanente no IBC, buscar meios de escoar a produção, enfim crescer e atingir o maior número de pessoas possível com nossa arte e amor à vida.

     Estou muito feliz com o reconhecimento e apoio do IBC, e me sinto honrada por esta oportunidade. Acredito tanto no projeto quanto nas pessoas nele envolvidas e  agradeço às ceramistas, também voluntárias: Doris Kelson, Ana Graciosa, Fábia Shnoor, Ana Frazão, Thais de Siervi e Ana Lúcia pelo apoio, envolvimento e entusiasmo. Assim como todos do IBC que ajudam no dia a dia da oficina.

Clara Fonseca


Clara Fonseca estudou Design Cerâmico na Chelsea School of Art, Inglaterra. Montou a escola e o curso de cerâmica da Fundação Mokiti Okada, no Brasil.  Participou de exposições no Brasil e na Europa. Fez palestras e workshops de técnica cerâmica  no Rio de Janeiro e Curitiba.


Fonte: Benjamin Constant - Publicação técnico-científica do Centro de Pesquisa,
 Documentação e Informação do IBC/IBCENTRO, número 30, ano II, abril 2005.
Av Pasteur 350-Urca - CEP 22290-240

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