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SOMA
KOMA YAKI
Celadon
A Tradição Cerâmica no Japão
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Vários alunos e amigos me questionam com uma certa freqüência sobre as
tradições cerâmicas do Japão, como é passada de pai para filho
durante gerações, até que ponto uma peça é original ou simplesmente reproduções
dos predecessores, como fica a criatividade e originalidade do ceramista
tradicional e tantas outras perguntas. Para responder tantas dúvidas e
curiosidades, sempre dou como exemplo uma cerâmica tradicional do norte do
Japão.
Qualquer
pessoa interessada em história da cerâmica japonesa deve ter ouvido o nome “Ninsei”-
Ninsei Nomomura, um homem que aprimorou a técnica de pintura em porcelana
sobre vidrado, característico da cidade de Kyoto, é considerado um dos
grandes nomes da cerâmica japonesa. Hoje, vários de seus trabalhos são
considerados tesouros nacionais e a sua estética altamente valorizada.
Construindo um forno próximo
ao Templo Ninnaji em meados do séc. XVII, Ninsei se dedicou à produção de cerâmica. Em seu atelier havia um homem que cuidadosamente
observava a técnica e estilo do grande mestre, era um homem quieto e com um
forte sotaque do norte. Este aprendizado rigoroso com Ninsei continuou
por anos. “Aprendizado rigoroso” não significa que o mestre era
rigoroso, mas sim a grande concentração exigida em aprender todas as técnicas
da cerâmica de Kyoto através de cada movimento de seu mestre e das
poucas instruções dadas. Significa também o grande senso de frustração do
aprendiz quando observa que o tempo passa rápido e ele ainda não tem toda a técnica
necessária para retornar a sua terra natal.
O nome deste homem era Gengouemon Tashiro.
Ele se tornaria o criador da cerâmica Soma Koma Yaki que também é
conhecido simplesmente como Soma Yaki. Muito foi esperado dele, deixou a
terra natal na atual região de Tohoku para aprender cerâmica com o
mestre na capital de Kyoto. Ele com certeza encontrou dificuldades sem
descrição durante o aprendizado e ainda não tinha certeza de quando se
tornaria um mestre na arte cerâmica.
Mas após vários anos, ele finalmente se torna um mestre. Antes de
retornar para casa, recebe o nome de Seijiuemon de Ninsei, um nome que
contém o caractere em chinês sei de Ninsei. Quando retorna para sua
cidade, atualmente Tamachi em Soma, Seijiuemon I constrói o forno
onde as primeiras peças foram queimadas. Acredita-se que o ano de início da
produção de cerâmica Soma Yaki tenha sido no primeiro ano da Era
Keian (1648), no entanto, existe outra referência divergente em relação a
esta data, segundo a tradição oral mantida pela família, quando Toshitane
Soma, o senhor feudal da região, foi a Kyoto no 9° ano da Era Genna
(1623), Gengouemon estava sob suas ordens. O Senhor que era
praticante da cerimônia do chá e o ordenou a ficar em Kyoto durante
sete anos para aprender com o mestre Minsei a arte cerâmica, teria
retornado no 7° ano da era Kan`ei (1630) e então teria construído o
forno.
Porém, não existe evidência que prove esta tradição, e julgando pela
carreira cerâmica de Ninsei, esta história tem consistência. A existência
de vários pontos de vistas sobre a origem da Soma Yaki, no entanto, não
afeta a sua tradição; isto indica também a longa história desta cerâmica
que tem sido referida como a fonte de origem de todas as demais cerâmicas da
região de Tohoku.
A princípio, parecia que Seijiuemon queimava suas peças no
estilo de Ninsei, mas ele recebera ordens de Yoshitane, o senhor
feudal de Soma, para produzir tigelas em um novo e original estilo. Isto
foi provavelmente porque Yoshitane tinha confiança na perícia de
Seijiuemon enquanto ceramista, ele desejava possuir tigelas únicas que
nenhum outro devoto da cerimônia do chá possuísse, ou porque ele desejava que
o ceramista desenvolvesse um novo tipo de cerâmica que o seu domínio pudesse
ostentar como um produto típico.
Após longas tentativas e vários caminhos percorridos, Seijiuemon
finalmente desenvolveu um novo método para produzir uma cerâmica diferente
misturando argila e areia. Ele pintou a imagem de um cavalo em galope e a
nomeou de Soma Koma Yaki, o que literalmente significa Cerâmica com
Pequeno Cavalo de Soma. Existem duas teorias sobre a origem do desenho do
cavalo. Em uma, o desenho teria sido baseado na pintura feita por um artista
chamado Naonobu Kano em uma porta de cedro de um dos quartos do Castelo
de Soma. Na outra versão, dizem que o próprio Naonobu pintou os
cavalos com o propósito específico de serem usados na cerâmica. |
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Qualquer que seja a origem do desenho, o fato é que Soma Yaki
tornou-se o produto típico do domínio de Yoshitane. Desde que Seijiuemon
e seus descendentes optaram por seguir a carreira de produtores de cerâmica,
todos os sucessores recebiam o nome de Seijiuemon e continuavam
produzindo para o feudo. Alguns produtos eram feitos exclusivamente para a coleção
particular do senhor feudal e outros eram oferecidos como presente; Soma Koma
Yaki não foi produzida para a população de forma geral até a Restauração
Meiji, quando o sistema feudal foi abolido.
Mesmo depois de perder o patrocínio do feudo, a família de Tashiro
sobreviveu como produtores de uma cerâmica antiga e tendo orgulho por isso. Soma
Koma mais uma vez começa a chamar a atenção no recente boom da cerâmica.
É verdade que mesmo depois da Restauração Meiji, houve varias ocasiões em que o a história e o renome da cerâmica foi publicado. Seijiuemon
XII recebeu vários prêmios em exposições e salões, tanto nacionais como
internacionais como em Paris e St. Louis, na Japan Brith Grand
Exibition dentre outras, Seijiuemon XIII foi permitido através de
uma garantia especial a continuar produzindo cerâmica durante a Segunda
Grande Guerra, como um artista que retinha tradições antigas, enquanto
nenhum outro artista da região de Tohoku teve este privilégio. Apesar
de tudo, de uma forma geral, Soma Koma não era tão evidente no campo
das artes cerâmicas do Japão.
Mesmo nos dias difíceis que seguiram com a Restauração Meiji, a família
de Tashiro continuou a se esforçar para carregar a longa tradição e
fazer novos desenvolvimentos. As atividades do último Seijiuemon merecem
uma referência especial. Ele foi designado como portador de um título especial
pela província de Fukushima e escolhido como um dos “Tesouros
Nacionais Vivos” pelo Ministério do Trabalho. E agora Seijiuemon
XV está continuando a tradição da produção cerâmica da família.
Elementos espirituais transmitidos de pai para filho através de várias gerações
dão dignidade a Soma Koma Yaki.
Entrevistamos Seijiuemon XV em seu ateliê em Tamachi,
localizado no centro da cidade de Soma. Tashiro tem apenas 40
anos, mas em sua postura podemos observar a dignidade e forte senso de
responsabilidade de um homem que encabeça um renomado trabalho cerâmico.
“Tradição é algo estranho e algo formidável. Quando eu era jovem, eu não
prestava muita atenção na maneira de ser de meu pai e muitas vezes eu o
criticava. Mas agora que eu o sucedi, me encontro fazendo as mesmas coisas que
ele e pensando da mesma forma. Embora que conscientemente nunca tenha tentado
observar a tradição ou cogitado abandonar a continuidade desta cerâmica.
Creio que a tradição vem fazendo isto comigo”.
Isto é exemplificado por uma decisão se deveria-se mudar o local do
ateliê ou não. O forno tipo Noborigama da família de Tashiro
tem sido usado por aproximadamente 3 séculos e meio, desde a geração do
primeiro Seijiueno. Com praticamente nenhum reparo, é o forno mais
antigo da região norte do Japão e serve como um símbolo, como
realmente é, da família. A localização do forno costuma ser a ideal em
termos geográficos, em Tamachi, onde o ateliê se localiza, costumava
ser nas cercanias do castelo e raramente se propagava em sua direção. No
entanto, com a expansão da cidade de Soma, Tamachi começou a se
tornar a sua parte central. Queimar cerâmica em Noborigama onde madeira
é usada com combustível, tornou-se um problema em termos de poluição e
prevenção a incêndios. Como resultado tem se tornado praticamente impossível
realizar queimas no forno tradicional desde 1970.
“Admito que o forno elétrico ou a gás pode realizar queimas com maior precisão
e qualidade, mas tais produtos são inferiores em charme. Então sugeri ao meu
pai que transferíssemos o atelier para outro lugar, mas ele recusou a proposta.
Agora, no entanto que eu o substituí como cabeça da família, eu não tenho a
menor intenção em deixar esta área, onde meus antecessores produziram peças
e as queimaram durante séculos, desde a implantação do ateliê. Isto não
significa que eu me curvei à tradição ou à história de minha família, mas ao
contrário, quero permanecer aqui, seguir a tradição e a transmitir para as próximas
gerações”.
Seijiuemon XV queima suas peças em fornos elétricos e a gás, mas usa o Noborigama
uma vez ao ano. “Não é livre de problemas, pois temos que notificar o corpo
de bombeiros e todas as casas da
vizinhança antes de usar o Noborigama. Mas eu realmente fico muito
excitado quando vou utilizá-lo. É um dia especial para mim e sigo as tradições
antigas. Não como carne durante uma semana antes do dia do início da
queima”. Soma Yaki é
conhecida como celadon craquelado. Possui finos craquelês na superfície
verde. Mas inúmeras das antigas peças Soma Koma possui craquelês em superfícies
amareladas. As trincas são produzidas quando as peças queimadas são
retiradas do forno e expostas ao ar frio exterior, devido a diferença do
coeficiente de contração entre a peça e o esmalte. Dizem que as
peças produzidas no ateliê da família de Tashiro continuam
produzindo craquelês por mais de 20 anos após a sua queima. Quanto mais você
a utiliza mais efeitos atrativos são conseguidos.
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Tashiro Seijiuemon não produz apenas as peças tradicionais como garrafas de saquê,
jarras e conjuntos para chá, mas desenvolve também um trabalho com formas
modernas e colorações variadas, e vinha pesquisando novos métodos de
modelagem. “Eu gostaria de experimentar varias possibilidades enquanto jovem. Acredito
que meu trabalho como Seijiuemon XV irá iniciar quando eu estiver nos
meus 50 anos. Estou convencido que as atuais trilhas e falhas irão ser úteis no
futuro. Não creio ser bom simplesmente carregar uma tradição. Temos que
desenvolver o entusiasmo para criar novas futuras tradições exercitando
constantemente sua própria originalidade e ingenuidade. Isto é o que eu
pessoalmente acredito. Todos os meus predecessores devem ter tido opiniões
semelhantes para que pudessem manter e desenvolver sua cerâmica”.
Pode parecer estranho e pouco usual mas existem dois tipos de cerâmica Soma
Yaki. O segundo tipo, chamado de Obori Soma Yaki, é feito na cidade
de Namie, cerca de 35 quilômetros de Soma. Esta cerâmica também
é um celadon craquelado com a pintura de um cavalo em galope. Foi
designado como produto artesanal tradicional em 1978.
Enquanto Soma Koma
Yaki era queimada sob o patrocínio do senhor feudal, Obori Soma
Yaki era queimada por fazendeiros locais em um ateliê não governamental
durante o tempo em que estavam livres dos trabalhos no campo. Estes, faziam peças
para o uso diário. Como estes dois tipos de cerâmica eram produzidos nos domínios
de Soma, eles passaram a ser genericamente chamados de Soma Yaki.
Hoje no entanto, são distinguidos com os devidos nomes Soma Koma Yaki e Obori
Soma Yaki.
Tradições dizem que a Obori Soma Yaki teve início no séc. XVII,
por um servo chamado Sama que servia a um samurai chamado Kyukan
Hangai. O desenho de um cavalo em galope já vinha sendo utilizado na cerâmica
Obori Soma Yaki daquele tempo. Alguns manuscritos dizem que Sama
tornou-se mestre no mesmo tipo de cerâmica de Seijiuemon, mas isso ainda
não foi provado até os dias de hoje. Kyukan
Hangai apostava na prosperidade da vila através da produção deste
tipo de cerâmica. Ele autorizou apenas sete moradores a desenvolverem a técnica
necessária para a produção e queima das peças, e permitiu que estes
transmitissem a técnica para o filho mais velho. Assim, por este sistema ele
preveniu que a técnica fosse aprendida por outros, e ao mesmo tempo ele tentava
ampliar o mercado para o escoamento da produção. E mais tarde Soma a
promove como seu produto tradicional. Assim Obori Soma teve um rápido
desenvolvimento, principalmente na Era Bunsei (1818-1829), esta cerâmica
era comercializada não apenas em toda a Tohoku mas também aos distritos
de Kanto e Kansai. Hoje existem 26 ateliês de cerâmica em Obori,
a maioria deles desenvolvendo peças para o dia a dia, como chaleiras, copos e
garrafas de saquê. Estas peças são grossas o que lhes dá uma impressão simples
e quente. Com certeza podemos observar que foram feitas por fazendeiros –
ceramistas de um tranqüilo lugar ao norte do Japão. Em adição
ao celadon craquelado e o desenho de um cavalo em galope, uma estrutura
dupla é também uma característica da Obori Soma Yaki. É um produto da
sabedoria popular para o uso no cotidiano, as peças com paredes duplas retêm o
calor da água em seu interior e também permite ao usuário segurar a peça sem
se queimar. Esta estrutura reflete a preocupação do artesão para com o usuário.
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Soma Koma Yaki e Obori Soma Yaki – estes dois tipos de cerâmica são
diferentes em seu processo de desenvolvimento e possuem características próprias.
Mas são idênticas se você associar com a imagem de um cavalo em galope
pintado sobre o celadon verde craquelado, como cavalos correndo em um
vasto campo verde. Soma é também conhecida como uma região de
criadores de cavalos e estes são o orgulho das pessoas que ali residem. Um
passeio pelas ruas de Namie emociona qualquer pessoa que tenha ligações
com a arte da cerâmica. Seus moradores são muito hospitaleiros e nos recebem
com as portas abertas tendo o maior prazer em nos guiar pelas oficinas e galpões,
mostrando todo o processo de fabricação que vai desde o beneficiamento da
argila e das demais matérias primas utilizadas para a fabricação do esmalte.
Podemos acompanhar a fabricação das peças tradicionais, as queimas e até
mesmo o trabalho de aplicação da
pintura. Tomar chá em uma tigela de celadon feita há mais de 300 anos e mantida como relíquia pela famílias pode ser uma experiência
única. Por último podemos visitar a Cooperativa Obori Soma Yaki e
acompanhar os workshops promovidos ali com o objetivo de transmitir aos mais
jovens a tradição cerâmica do local. |

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Sebastião de Meira Pimenta Jr é formado em Comunicação
Visual pela UEMG. O artista estudou,durante alguns anos, cerâmica no Japão.
Atualmente leciona e possui ateliê na cidade de Governador Valadares-MG. |
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