APRENDENDO OU RELEMBRANDO
CERÂMICANORIO     www.ceramicanorio.com

SOMA KOMA YAKI
Celadon

A Tradição Cerâmica no Japão

  Texto de Sebastião Pimenta.


 

 

        Vários alunos e amigos me questionam com uma certa freqüência sobre as tradições cerâmicas do Japão, como é passada de pai para filho durante gerações, até que ponto uma peça é original ou simplesmente reproduções dos predecessores, como fica a criatividade e originalidade do ceramista tradicional e tantas outras perguntas. Para responder tantas dúvidas e curiosidades, sempre dou como exemplo uma cerâmica tradicional do norte do Japão.
Tive a oportunidade de conhecer e visitar por diversas vezes Tashiro Seijuemon, o último Seijiuemon da 15ª geração de uma família de ceramistas que veio a falecer recentemente na cidade de Soma no Japão, Tashiro era o mantenedor da tradicional cerâmica Soma Koma Yaki, um celadon verde intenso. Na época eu estava apenas iniciando na arte cerâmica e creio que as conversas com este mestre muito contribuiu para que persistisse no aprendizado. Aqui pretendo introduzir um pouco da história deste tipo de celadon e a visão de Tashiro em relação às tradições cerâmicas do Japão.

          Qualquer pessoa interessada em história da cerâmica japonesa deve ter ouvido o nome “Ninsei”- Ninsei Nomomura, um homem que aprimorou a técnica de pintura em porcelana sobre vidrado, característico da cidade de Kyoto, é considerado um dos grandes nomes da cerâmica japonesa. Hoje, vários de seus trabalhos são considerados tesouros nacionais e a sua estética altamente valorizada.

         Construindo um  forno próximo ao Templo Ninnaji em meados do séc. XVII, Ninsei se dedicou à produção de cerâmica. Em seu atelier havia um homem que cuidadosamente observava a técnica e estilo do grande mestre, era um homem quieto e com um forte sotaque do norte. Este aprendizado rigoroso com Ninsei continuou por anos. “Aprendizado rigoroso” não significa que o mestre era rigoroso, mas sim a grande concentração exigida em aprender todas as técnicas da cerâmica de Kyoto através de cada movimento de seu mestre e das poucas instruções dadas. Significa também o grande senso de frustração do aprendiz quando observa que o tempo passa rápido e ele ainda não tem toda a técnica necessária para retornar a sua terra natal.

         O nome deste homem era Gengouemon Tashiro. Ele se tornaria o criador da cerâmica Soma Koma Yaki que também é conhecido simplesmente como Soma Yaki. Muito foi esperado dele, deixou a terra natal na atual região de Tohoku para aprender cerâmica com o mestre na capital de Kyoto. Ele com certeza encontrou dificuldades sem descrição durante o aprendizado e ainda não tinha certeza de quando se tornaria um mestre na arte cerâmica.

         Mas após vários anos, ele finalmente se torna um mestre. Antes de retornar para casa, recebe o nome de Seijiuemon de Ninsei, um nome que contém o caractere em chinês sei  de Ninsei. Quando retorna para sua cidade, atualmente Tamachi em Soma, Seijiuemon I constrói o forno onde as primeiras peças foram queimadas. Acredita-se que o ano de início da produção de cerâmica Soma Yaki tenha sido no primeiro ano da Era Keian (1648), no entanto, existe outra referência divergente em relação a esta data, segundo a tradição oral mantida pela família, quando Toshitane Soma, o senhor feudal da região, foi a Kyoto no 9° ano da Era Genna (1623), Gengouemon estava sob suas ordens. O Senhor que era praticante da cerimônia do chá e o ordenou a ficar em Kyoto durante sete anos para aprender com o mestre Minsei a arte cerâmica, teria retornado no 7° ano da era Kan`ei (1630) e então teria construído o forno.

         Porém, não existe evidência que prove esta tradição, e julgando pela carreira cerâmica de Ninsei, esta história tem consistência. A existência de vários pontos de vistas sobre a origem da Soma Yaki, no entanto, não afeta a sua tradição; isto indica também a longa história desta cerâmica que tem sido referida como a fonte de origem de todas as demais cerâmicas da região de Tohoku.

         A princípio, parecia que Seijiuemon queimava suas peças no estilo de Ninsei, mas ele recebera ordens de Yoshitane, o senhor feudal de Soma, para produzir tigelas em um novo e original estilo. Isto foi provavelmente porque Yoshitane tinha confiança na perícia de Seijiuemon enquanto ceramista, ele desejava possuir tigelas únicas que nenhum outro devoto da cerimônia do chá possuísse, ou porque ele desejava que o ceramista desenvolvesse um novo tipo de cerâmica que o seu domínio pudesse ostentar como um produto típico. 

         Após longas tentativas e vários caminhos percorridos, Seijiuemon finalmente desenvolveu um novo método para produzir uma cerâmica diferente misturando argila e areia. Ele pintou a imagem de um cavalo em galope e a nomeou de Soma Koma Yaki, o que literalmente significa Cerâmica com Pequeno Cavalo de Soma. Existem duas teorias sobre a origem do desenho do cavalo. Em uma, o desenho teria sido baseado na pintura feita por um artista chamado Naonobu Kano em uma porta de cedro de um dos quartos do Castelo de Soma. Na outra versão, dizem que o próprio Naonobu pintou os cavalos com o propósito específico de serem usados na cerâmica.  

 

        

        

 

          Qualquer que seja a origem do desenho, o fato é que Soma Yaki tornou-se o produto típico do domínio de Yoshitane. Desde que Seijiuemon e seus descendentes optaram por seguir a carreira de produtores de cerâmica, todos os sucessores recebiam o nome de Seijiuemon e continuavam produzindo para o feudo. Alguns produtos eram feitos exclusivamente para a coleção particular do senhor feudal e outros eram oferecidos como presente; Soma Koma Yaki não foi produzida para a população de forma geral até a Restauração Meiji, quando o sistema feudal foi abolido.

         Mesmo depois de perder o patrocínio do feudo, a família de Tashiro sobreviveu como produtores de uma cerâmica antiga e tendo orgulho por isso. Soma Koma mais uma vez começa a chamar a atenção no recente boom da cerâmica. É verdade que mesmo depois da Restauração Meiji, houve varias ocasiões em que o a história e o renome da cerâmica foi publicado. Seijiuemon XII recebeu vários prêmios em exposições e salões, tanto nacionais como internacionais como em Paris e St. Louis, na Japan Brith Grand Exibition dentre outras, Seijiuemon XIII foi permitido através de uma garantia especial a continuar produzindo cerâmica durante a Segunda Grande Guerra, como um artista que retinha tradições antigas, enquanto nenhum outro artista da região de Tohoku teve este privilégio. Apesar de tudo, de uma forma geral, Soma Koma não era tão evidente no campo das artes cerâmicas do Japão.

        Mesmo nos dias difíceis que seguiram com a Restauração Meiji, a família de Tashiro continuou a se esforçar para carregar a longa tradição e fazer novos desenvolvimentos. As atividades do último Seijiuemon merecem uma referência especial. Ele foi designado como portador de um título especial pela província de Fukushima e escolhido como um dos “Tesouros Nacionais Vivos” pelo Ministério do Trabalho. E agora Seijiuemon XV está continuando a tradição da produção cerâmica da família. Elementos espirituais transmitidos de pai para filho através de várias gerações dão dignidade a Soma Koma Yaki.

        Entrevistamos  Seijiuemon XV em seu ateliê em Tamachi, localizado no centro da cidade de Soma. Tashiro tem apenas 40 anos, mas em sua postura podemos observar a dignidade e forte senso de responsabilidade de um homem que encabeça um renomado trabalho cerâmico.

        “Tradição é algo estranho e algo formidável. Quando eu era jovem, eu não prestava muita atenção na maneira de ser de meu pai e muitas vezes eu o criticava. Mas agora que eu o sucedi, me encontro fazendo as mesmas coisas que ele e pensando da mesma forma. Embora que conscientemente nunca tenha tentado observar a tradição ou cogitado abandonar a continuidade desta cerâmica. Creio que a tradição vem fazendo isto comigo”.

         Isto é exemplificado por uma decisão se deveria-se mudar o local do ateliê ou não. O forno tipo Noborigama da família de Tashiro tem sido usado por aproximadamente 3 séculos e meio, desde a geração do primeiro Seijiueno. Com praticamente nenhum reparo, é o forno mais antigo da região norte do Japão e serve como um símbolo, como realmente é, da família. A localização do forno costuma ser a ideal em termos geográficos, em Tamachi, onde o ateliê se localiza, costumava ser nas cercanias do castelo e raramente se propagava em sua direção. No entanto, com a expansão da cidade de Soma, Tamachi começou a se tornar a sua parte central. Queimar cerâmica em Noborigama onde madeira é usada com combustível, tornou-se um problema em termos de poluição e prevenção a incêndios. Como resultado tem se tornado praticamente impossível realizar queimas no forno tradicional desde 1970.

         “Admito que o forno elétrico ou a gás pode realizar queimas com maior precisão e qualidade, mas tais produtos são inferiores em charme. Então sugeri ao meu pai que transferíssemos o atelier para outro lugar, mas ele recusou a proposta. Agora, no entanto que eu o substituí como cabeça da família, eu não tenho a menor intenção em deixar esta área, onde meus antecessores produziram peças e as queimaram durante séculos, desde a implantação do ateliê. Isto não significa que eu me curvei à tradição ou à  história de minha família, mas ao contrário, quero permanecer aqui, seguir a tradição e a transmitir para as próximas gerações”.

        Seijiuemon XV queima suas peças em fornos elétricos e a gás, mas usa o Noborigama uma vez ao ano. “Não é livre de problemas, pois temos que notificar o corpo de bombeiros e todas as casas da vizinhança antes de usar o Noborigama. Mas eu realmente fico muito excitado quando vou utilizá-lo. É um dia especial para mim e sigo as tradições antigas. Não como carne durante uma semana antes do dia do início da queima”.

       Soma Yaki é conhecida como celadon craquelado. Possui finos craquelês na superfície verde. Mas inúmeras das antigas peças Soma Koma possui craquelês em superfícies amareladas. As trincas são produzidas quando as peças queimadas são retiradas do forno e expostas ao ar frio exterior, devido a diferença do coeficiente de contração entre a peça e o esmalte. Dizem que as  peças produzidas no ateliê da família de Tashiro continuam produzindo craquelês por mais de 20 anos após a sua queima. Quanto mais você a utiliza mais efeitos atrativos são conseguidos. 

 

 

 

        

 

          Tashiro Seijiuemon não produz apenas as peças tradicionais como garrafas de saquê, jarras e conjuntos para chá, mas desenvolve também um trabalho com formas modernas e colorações variadas, e vinha pesquisando novos métodos de modelagem.

        “Eu gostaria de experimentar varias possibilidades enquanto jovem. Acredito que meu trabalho como Seijiuemon XV irá iniciar quando eu estiver nos meus 50 anos. Estou convencido que as atuais trilhas e falhas irão ser úteis no futuro. Não creio ser bom simplesmente carregar uma tradição. Temos que desenvolver o entusiasmo para criar novas futuras tradições exercitando constantemente sua própria originalidade e ingenuidade. Isto é o que eu pessoalmente acredito. Todos os meus predecessores devem ter tido opiniões semelhantes para que pudessem manter e desenvolver sua cerâmica”.

        Pode parecer estranho e pouco usual mas existem dois tipos de cerâmica Soma Yaki. O segundo tipo, chamado de Obori Soma Yaki, é feito na cidade de Namie, cerca de 35 quilômetros de Soma. Esta cerâmica também é um celadon craquelado com a pintura de um cavalo em galope. Foi designado como produto artesanal tradicional em 1978.

        Enquanto Soma Koma Yaki era queimada sob o patrocínio do senhor feudal, Obori Soma Yaki era queimada por fazendeiros locais em um ateliê não governamental durante o tempo em que estavam livres dos trabalhos no campo. Estes, faziam peças para o uso diário. Como estes dois tipos de cerâmica eram produzidos nos domínios de Soma, eles passaram a ser genericamente chamados de Soma Yaki. Hoje no entanto, são distinguidos com os devidos nomes Soma Koma Yaki e Obori Soma Yaki.

        Tradições dizem que a Obori Soma Yaki teve início no séc. XVII, por um servo chamado Sama que servia a um samurai chamado Kyukan Hangai. O desenho de um cavalo em galope já vinha sendo utilizado na cerâmica Obori Soma Yaki daquele tempo. Alguns manuscritos dizem que Sama tornou-se mestre no mesmo tipo de cerâmica de Seijiuemon, mas isso ainda não foi provado até os dias de hoje.

       Kyukan Hangai apostava na prosperidade da vila através da produção deste tipo de cerâmica. Ele autorizou apenas sete moradores a desenvolverem a técnica necessária para a produção e queima das peças, e permitiu que estes transmitissem a técnica para o filho mais velho. Assim, por este sistema ele preveniu que a técnica fosse aprendida por outros, e ao mesmo tempo ele tentava ampliar o mercado para o escoamento da produção. E mais tarde Soma a promove como seu produto tradicional. Assim Obori Soma teve um rápido desenvolvimento, principalmente na Era Bunsei (1818-1829), esta cerâmica era comercializada não apenas em toda a Tohoku mas também aos distritos de Kanto e Kansai. Hoje existem 26 ateliês de cerâmica em Obori, a maioria deles desenvolvendo peças para o dia a dia, como chaleiras, copos e garrafas de saquê. Estas peças são grossas o que lhes dá uma impressão simples e quente. Com certeza podemos observar que foram feitas por fazendeiros – ceramistas de um tranqüilo lugar ao norte do Japão.

       Em adição ao celadon craquelado e o desenho de um cavalo em galope, uma estrutura dupla é também uma característica da Obori Soma Yaki. É um produto da sabedoria popular para o uso no cotidiano, as peças com paredes duplas retêm o calor da água em seu interior e também permite ao usuário segurar a peça sem se queimar. Esta estrutura reflete a preocupação do artesão para com o usuário.

 

 

 

 

 

        Soma Koma Yaki e Obori Soma Yaki – estes dois tipos de cerâmica são diferentes em seu processo de desenvolvimento e possuem características próprias. Mas são idênticas se você associar com a imagem de um cavalo em galope pintado sobre o celadon verde craquelado, como cavalos correndo em um vasto campo verde. Soma é também conhecida como uma região de criadores de cavalos e estes são o orgulho das pessoas que ali residem.

       Um passeio pelas ruas de Namie emociona qualquer pessoa que tenha ligações com a arte da cerâmica. Seus moradores são muito hospitaleiros e nos recebem com as portas abertas tendo o maior prazer em nos guiar pelas oficinas e galpões, mostrando todo o processo de fabricação que vai desde o beneficiamento da argila e das demais matérias primas utilizadas para a fabricação do esmalte. Podemos acompanhar a fabricação das peças tradicionais, as queimas e até mesmo o trabalho de aplicação  da pintura. Tomar chá em uma tigela de celadon feita há mais de 300 anos e mantida como relíquia pela famílias pode ser uma experiência única. Por último podemos visitar a Cooperativa Obori Soma Yaki e acompanhar os workshops promovidos ali com o objetivo de transmitir aos mais jovens a tradição cerâmica do local.  

 

       

 

 

Sebastião de Meira Pimenta Jr é formado em Comunicação Visual pela UEMG. O artista estudou,durante alguns anos, cerâmica no Japão. Atualmente leciona e possui ateliê na cidade de Governador Valadares-MG.
Visite seu site: http://www.atelierpimenta.pro.br/

 

 

Volta

Ir Página Principal:  CERÂMICANORIO   www.ceramicanorio.com