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EXPERIÊNCIAS COM CELADON
Texto de Alfredo Rainho, ceramista com ateliê em Búzios-RJ

 

  O termo  celadon  talvez não seja conhecido de todos os ceramistas. Mais conhecido certamente de colecionadores de cerâmica e porcelana chinesas e antiquários. Talvez também haja um pouco de confusão em torno do termo, que, em  geral, significa cerâmica chinesa antiga de cor verde clara, imitação da cor do jade.

Os chineses nunca ouviram falar em celadon.  A palavra celadon  é o nome de um pastor  de uma peça francesa, do século 17, L’Astrée,  que se vestia com uma roupa verde acinzentada. Nessa  época chegavam à França as cerâmicas e porcelanas chinesas desse verde ou  verde acinzentado, que se tornaram imediatamente uma paixão dos europeus amantes do que os franceses chamavam de  chinoiserie, a  arte que vinha da China.

 

 

 

  Na  China se distinguia a cerâmica comum, o que hoje chamamos de baixa temperatura, em inglês earthenware,  e a queimada em alta temperatura, fosse ela feita de argila, stoneware  inglês,  grés,  ou de porcelana. O importante  é que fosse cozida a mais de 1200ºC.  Naturalmente nem existia graus centígrados na época nem os nossos “cones” de nossos dias:  funcionava o “olhômetro”,  a coloração da atmosfera  dentro do forno ou da chama que saía pela chaminé,  branco-amarelado ou branco mesmo. Também antigamente retirava-se uma peça com ferros para  verificar o grau de queima da peça. A porcelana seria uma categoria acima, mas não, como consideramos hoje no ocidente, uma categoria à parte do que chamamos de cerâmica.  Para o chinês era tudo um produto do fogo.

Naqueles tempos, um forno, construído pela comunidade, passava de geração a geração, durava algumas dezenas de anos e muitas vezes  era destruído somente  por tropas  inimigas, pelas guerras. Materiais diferentes, fornos e técnicas também diferentes resultam que  os fornos do norte da China produziam um celadon  de tonalidade diferente do  sul, num um verde claro, no outro um amarelado, ou então uma tonalidade azulada.

Com o passar dos tempos os colecionadores e museus foram catalogando e encontrando celadons de tonalidades diferentes, características distintas e  deram nomes,  pelo lugar de fabricação, ou pela época, pelos Imperadores , os Ming, os Sung e tudo mais.  Assim, Bernard Leach¹,  em seu livro, que se tornou a bíblia dos ceramistas modernos, distingue uns 70 celadons.  Ricardo Joppert², sinologista e colecionador brasileiro, em seus livros,  analisa e define muitos celadons, os chamados Céladons do Norte, do Sul. Os especialistas  consideram que a fase áurea do celadon na China foi entre os séculos 9 e 14, tendo havido como um renascimento no século 18.

Quais  as características técnicas do celadon?  Basicamente é um esmalte feldspático, com diferentes formulações, mas em que a cor, seja o verde claro ou escuro, o amarelado, o verde-acinzentado, ou o azulado é fornecido simplesmente pelo  óxido de ferro, ou mais simplesmente ainda,  talvez pelo óxido de ferro contido na argila utilizada pelos chineses antigos.  Em segundo lugar, a queima em redução.  Naturalmente, os chineses não tinham idéia do que seria redução: seus fornos  geralmente subindo encostas, que os japoneses depois chamaram de "anagama" e "noborigama", de uma  ou mais câmaras, queimados com lenha,  eram naturalmente queimas de redução, em que o oxigênio era forçado  e retirado, quase à força, de dentro da própria argila para a realização da queima. A cor e a opalescência dos celadons resultam de um efeito ótico sobre as partículas  ultrafinas em suspensão e ainda de um jogo de luz sobre os milhares de minúsculas bolinhas de ar, invisíveis a olho nu. Outra característica é o craquelado, os minúsculos veios que se espraiam pelo esmalte.  Os verdes produzidos pelo óxido de ferro em redução são de tonalidades inteiramente diferentes dos verdes produzidos pelo cobre ou pelo cromo.

Já nos fornos europeus mais antigos, como tradicional bottle kiln , forno de forma de garrafa da indústria inglesa dos últimos séculos,  o fogo e o calor subiam natural e diretamente  para a atmosfera. Nos  fornos antigos chineses  o mesmo fogo e o calor viajavam dentro do forno  por dezenas de metros até atingir lá no final a saída ou a chaminé, quando havia.  Nos fornos europeus o  calor não era retido, condicionado, resultando na redução, saindo livremente, resultando no  que hoje chamamos de atmosfera oxidante.  Os gregos antigos conheceram a redução e a utilizaram para seus vasos negros. Mas, depois foi esquecida.

Da China o celadon passou para a Coréia, para o Reino Koryo.  Os coreanos  não copiaram só os fornos chineses, mas também criaram e fizeram inovações próprias. Os japoneses  eram mais atrasados em matéria de cerâmica , mas nas guerras com a Coréia,  em que saíram vencedores (não em todas),  levaram para o Japão centenas de oleiros coreanos como prisioneiros de guerra.  Coisa parecida  com o que fizeram os americanos: “importaram” depois da derrocada nazista na última guerra, “convidaram” (entre aspas) dezenas ou centenas de cientistas alemães.    No  século 16  um oleiro coreano tinha  o mesmo valor para os Shoguns japoneses que um cientista alemão para os americanos de 1945.

O celadon coreano tem características próprias como o nipônico. Os materiais eram diferentes. Mas, a paixão por  aquele vidrado de um efeito todo especial   delicado, poético,  que realçava e dava encanto  especial ao baixo-relevo,  de flores, figuras e paisagens gravadas na cerâmica ou na porcelana.  Era a beleza clama, sossegada, poética, monocromática , tão diferente da  cerâmica multicolorida,  de pintura de paisagens ou figurativa.

Modernamente, os ceramistas procuram reproduzir as tonalidades e os encantos dos celadons. Como obter  aqueles mesmo efeitos com técnicas,  os materiais e os fornos de hoje?   Muita pesquisa foi feita.  Na China e no Japão analisaram os materiais antigos, pesquisaram as técnicas antigas e os fornos dessas épocas.  Muito trabalho desde o livro básico de Bernard Leach . Hoje podemos reproduzir, com materiais vendidos nas lojas de cerâmica,  um  “Celadon do Norte”, lá do século 10,  da dinastia Sung, ou um Lung-ch’üan  da Quinta Dinastia.  Não só o esmalte, mas também a massa cerâmica.

Em  meu caso cheguei ao celadon depois de andar pela faixa dos esmaltes de cone 4  e 6.  Mas, para preparar esses esmaltes necessitava muitas vezes de fritas ou de materiais que eram considerados de alta toxidade, como carbonato de  bário, ou pior ainda, carbonato de lítio.  Ora, a fórmula  do celadon era simples, muito simples, feldspato,  quartzo, carbonato de cálcio e um pouquinho de óxido de ferro.  Nada mais, tudo simples e barato.  Gastaria mais gás, para chegar ao cone 9 ou 10. Mas, compensava.

Meu primeiro forno foi elétrico, um pequeno Naber, quando  comecei com cerâmica na Alemanha e foi  trazido para Búzios.  Construí um forno catenário para lenha. Nadia, minha mulher e ceramista, e eu nos revezávamos durante a noite jogando lenha no forno. Mas era difícil obter boa lenha em Búzios. O fogo fascina. Não dava para voltar para o elétrico. A solução seria o forno a gás. A dúvida era entre a fibra cerâmica e o tijolo isolante.  Havia lido um artigo numa revista americana em que o autor sustentava que o tijolo isolante apresentava a vantagem de resfriar mais lentamente. Achei válido e assim, já se vão 12 anos como meu Ganesh (seu nome), fabricado em São Paulo, de dois queimadores  e hoje com 450 queimas de biscoito e de altas.

Experimentei uma receita tirada do dicionário de cerâmica  de Gustav Weiss³, com quem havia feito um curso  em Berlim, em 1982. E ficou minha receita preferida. Com  a argila dá tonalidade normalmente verde entre claro e escuro, dependendo também da temperatura.  No forno a gás cada posição  no forno, em baixo, em cima, mais para trás perto da porta, cada lugar tem uma temperatura diferente, não há uniformidade.  Assim, a peça feita com a mesma argila e  banhada com o mesmo esmalte pode variar de coloração.  Com  massa de  porcelana, então, as tonalidades são mais delicadas, chegando-se ao verde do jade.

O Ganesh  normalmente já dá certa redução, mesmo com o registro da chaminé  totalmente aberto do princípio ao fim da queima. Mas, normalmente fecho o registro por volta de 800-900 graus (uso um termopar ligado a um indicador digital). Com o registro fechado  vou até por volta de 1150, quando a temperatura começa a subir mais lentamente, uns  20°/hora, então abro um quarto do registro e totalmente por volta de  1230º ou 1250º.  Seguindo  em oxidação até 1280º  ou 1300º , cone 9 ou 10. Alcançada a temperatura, mantenho um patamar de 15 a 30 minutos, variando por vezes com o registro fechado ou meio-aberto. A queima leva habitualmente 10/11 horas.

Experimentei a técnica de seguir em oxidação até cone 9/10 e, no esfriamento, manter o forno por 30 minutos, com o registro fechado, para obter redução.  Para uma queima de redução para  1280º -1300º  (cones 9-10) alguns ceramistas aconselham queima em  atmosfera oxidante até 955º  (cone 08) , então  redução de  30 a 60  minutos  para redução da própria massa. Daí atmosfera neutra até 1230º -1250º  (cones 7-8),   reduzir por  30 ou 60 minutos,  e seguir em atmosfera oxidante até o final. Há, sem dúvida,  variação entre a temperatura real e a indicada pelo mostrador digital, no meu caso da ordem de uns 4%. Assim, normalmente coloco cones dentro do forno, para controle depois da queima.

O óxido de ferro em  oxidação dá vermelho, mas mais freqüentemente, marrom; e só em redução se pode obter cores  como o verde e mesmo azulado. Deve-se à transformação do  óxido de Ferro férrico (Fe²O³) , vermelho, para  óxido férreo, preto  (FeO).

Para obter uma massa clara, também se pode cobrir a argila com engobe, ou uma pasta de argila branca.  O efeito do vidrado variará com a argila.  Um ceramista francês lembra  que o ideal é adquirir sempre uma quantidade regular dos materiais, para evitar o ceramista tenhas problemas ao preparar o esmalte, um sai de uma maneira outro, de outra.  Segundo ele os materiais, de um mesmo fornecedor, nem sempre são exatamente os mesmos.  E isso é lá na França, país europeu, imaginemos  nós aqui no Brasil com os nossos fornecedores!!!

A aplicação do esmalte celadon não é tão fácil - custa a pegar.  Quando é peça pequena, mergulho, e nas maiores, dou banho, despejando o esmalte por cima da peça. Tenho utilizado o celadon para peças de esculturas para jardim. Aí despejo o esmalte sobre a peça, várias vezes.

O ceramista francês Jacques Datcharry*, em seu trabalho sobre esmaltes em forma de “folhetim” pela Internet,  lembra que, “em teoria (mas em teoria somente) obter um celadon é muito simples,”  e acrescenta “fazer um belo celadon, é difícil, muito difícil, e se necessita de grande experiência (ou muita sorte) e  humildade  acima de tudo.”

O celadon para o ceramista é uma pesquisa apaixonante e sem fim.

¹ Bernard Leach, A Potter’s Book, Faber and Faber,  London, 1977.

² Ricardo Joppert, A Porcelana Chinesa, Artlivre, Rio de Janeiro, 1985, O Samadhi do Verde-Azul, Avenir, Rio de Janeiro, 1984.

³ Gustav Weiss, Alte Keramik neu entdeckt;  Keramik Lexikon,  Ullstein, Berlin,  1979, 1984.

* Jacques Datcharry, http://perso.wanadoo.fr//poterie.lasseube/

Observação: Palestra  realizada por Alfredo Rainho, ceramista com ateliê em Búzios-RJ, no Ateliê  Magali Arieta, Rio de Janeiro, em 25 de maio de 2001, dentro de programação da Associação dos Ceramistas do Rio de Janeiro – ACE-Rio.
 

 

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